Tenho que conviver com essa incrível ironia, vivo minha vida inteira só e, no fundo, meu maior medo é viver só. Não sei lidar com a vida.
Do fundo do meu coração. Onde se acham as verdades incontestáveis.
Do fundo do meu coração. Onde se acham as verdades incontestáveis.
vinha caindo a tarde. era um poente de agosto.
a sombra já enoitava as moitas. a umidade
aveludava o musgo. e tanta suavidade
havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
a viração do oceano acariciava o rosto
como incorpóreas mãos. fosse mágoa ou saudade,
tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- foi então que senti sorrir o meu desgosto…
ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
depois o céu… e mar e céu azuis: dir-se-ia
prolongarem a cor ingênua de teus olhos.
a paisagem ficou espiritualizada.
tinha adquirido uma alma. e uma nova poesia
desceu do céu, subiu o mar, cantou na estrada…
por Manuel Bandeira.
eu te peço perdão por te amar de repente
embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
das horas que passei à sombra dos teus gestos
bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
das noites em que vivi acalentado
pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
e posso te dizer que o grande afeto que te deixo
não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
é um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
e só te pede que te repouses quieta, muito quieta
e deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora.
por Vinícius de Moraes.
seus sonhos são engraçados: ficar noiva com um anel da tifanny’s,
percorrer a europa de trem,
tocar trompete e falar alemão,
conhecer alguém que realmente faça alguma diferença,
ter esperança em algo.
sonhos… que pelo menos você têm.
não é como a superfície de um quadro negro, fria,
como eu.
cadê os meus sonhos?
como viraram fumaça feita de limbo.
e tudo acaba em construção mais uma vez.
A vida é uma comédia. Ou um conto de Shakespeare.
Na verdade, a vida não é mais do que carnificina,
Puro xeque-mate. Manteiga sem pão.
Nada de delícias simples. Nada de pôr do sol.
Selvageria de gente civilizada vivendo a base de seleção natural.
Poema do Bandeira virado do avesso.
História de amor com suicídio no final.
Melancolia?
Avante ironia, porque a vida é uma comédia.
não sinto mais o prazer das coisas simples que tanto busquei.
tudo o que sinto é uma ânsia incontrolável de tristeza e mágoa.
um desejo forte de nunca mais voltar,
de me esquecer no esquecimento,
de me transformar em eclipse lunar.
se a vida vale tanto a pena? duvido muito.
já perdi esse desejo de sol e primavera.
já deixei os meus sonhos de lado.
tudo se transformou em uma grande tolice,
uma grande piada.
deixei de ser quem eu era para me tornar isso.
minha alma morreu, só meu corpo sobrevive.
se vejo o sol brilhar? não mais.
só vejo a noite e o incansável breu.
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…
…o sol se levanta, depois de um longo período de incertezas e dúvidas. Na maré agitada ele tenta se desvencilhar da água que percorre seu caminho. Impossível. E o pior disso tudo: Impossível de acreditar em algo desse tipo. Ele acha que a vida foi cruel com ele, acha que o mundo mais uma vez pregou uma trágica peça. Ele se levanta, se esforça em sorrir. O fracasso é seu velho amigo, a solidão é sua amante e a tempestade o agora.
A chuva o castiga. Ele não liga mais, não mais. Ele decidiu que quer tentar de novo. Um lampejo de esperança percorreu o céu e ele presenciou isso. Agora o mundo soa diferente em seus ouvidos. Agora a vida é amargamente doce, é cristalina. A maré se acalma, a chuva branda. Ele não está mais sozinho, não mais. Nunca mais.
nada mais importa, além do tempo.
que a chuva passe devagar, assim o tempo aspira a solidão
das sobras de mágoas do passado.
de algo inútil, infantil.
esqueça o que passou e siga em frente, mas cadê o caminho para frente?